sexta-feira, 20 de junho de 2008

Não me peças...


Não me peças que te dê o nada
Se o nada não te quero dar
Não me peças que te assassine
Se tenho só a arma do lutar
Não me peças que me amordace
Se é meu coração que está açaimado
Não me peças nada de nada
Porque eu nada te posso dar
Pede-me distância
Distância dar-te-ei.
Pede-me silêncio
Calada chorarei.
Pede-me poesia
Poesia dar-te-ei
Pede-me o coração
Porque ele eu já te dei

Mas lembra-te, por favor
Que nem tudo devemos pedir
em nome do amor.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Momento circunscrito


Deitada numa cama do hospital
Penso…nem eu sei em quê
Na minha mente,
imagens surgem do passado, do presente
como um comboio expresso, veloz
sem se deter em nenhum apeadeiro
Mescla de sentimentos emergem
de um vulcão, ainda em ebulição
Lava incandescente invade
a montanha do meu sentir
formando rios de lama
que se extinguem
ao contacto do iceberg da razão
O expresso continua a deslizar
rapidamente
A minha mente
eterizar-se do passado, do presente
O tempo pára ao tic-tac do relógio
O meu ser ausenta-se
suspenso do comboio expresso
que continua em andamento

A porta da alma escancara-se
de repente
O sonho penetra sofregamente
Na mente atordoada
O futuro… imagina-se
O comboio expresso imobiliza-se
O sol renasce brilhante
Numa primavera apetecível
Gotas de orvalho penetra
a lava vulcânica
arando o solo
a semente é lançada
flores campestres perfumam
a montanha do sentir.
O presente é passado
O amanhã é esquecido
O sonho é intensamente vivido.

Escrito a 12/07/08

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Luar sedutor


Acordada no silencio da noite
Suspensa pelos filamentos
prateados das estrelas
Amparada pela sua manta sideral
Pairo na aragem do tempo
tal fantasma à procura
da casualidade existencial
das interacções cósmicas

Os meus olhos contemplam-te

Peço-te perdão, lua cintilante
Por ter provocado
O relampejar dos Deuses
Ao enfeitiçar-me do teu luar sedutor
Que me trajou de ternura
Alumiando minha existência

Não escutei a voz da razão
Que sussurrava baixinho
Pára, amordaça o teu coração
não o deixes sentir
Pára, curariza-o, paralisa-o
não o deixes pulsar
Pára, não o deixes voar.

Vagueio pelo espaço penitenciando-me
Sentindo o espinho da saudade
As pétalas da ternura
A chama do desejo
A vontade de voltar a sentir
A quentura do teu luar

Estendo a minha mão trémula
Quero afagar-te…
Mas como? Interrogo-me
Como posso ansiar tocar-te
Eu insignificante mortal?

Gotículas orvalhadas deslizam lentamente
Molhando meu corpo volatilizado

Tu olhas-me, sorris tristemente
Permanecendo em constante rotação.
E eu continuo a pairar
Na aragem do tempo
Em absoluta meditação

sábado, 7 de junho de 2008

Sonho de maresia

Estendo - me no calhau da praia
Sobre as macias algas marinhas
Envolvo-me de suave maresia
Aqueço-me com a manta solar

Meu corpo vestido de melancolia
Divaga….penetra
Na profundeza do oceano
Acaricia a estrela-do-mar
Delicia-se com as doces melopeias
Que ecoam dos acordes da harpa celestial
Tocando lúbricamente o tango

Os meus olhos fascinam-se
Com as medusas reluzindo
Das cores da paixão
Rodopiando sensualmente
Mais e mais, tornando-se unas

As conchas cantadeiras
Soltam cadenciadamente
Pérolas de amor
Inundando a vastidão marinha
De essências da vida

Eu continuo a contemplar
As medusas libertas
Entrelaçadas a dançar
O tango sedutor da vida

Permaneço imóvel, fascinada
E sinto o salgado dos meus olhos
Diluir-se nas torrentes oceânicas.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Um dia...


Um dia
O passado ficará inerte
Nas ruínas do tempo
Num ponto fantasma qualquer

Um dia
Eu serei ave, foca, leoa…
Voarei na vastidão do firmamento
Mergulharei na profundura do mar
Vaguearei pela densa floresta

Serei poeira cósmica
Diluída no universo astral
E quando eu já não existir
Tu procurar-me-ás
No recanto das tuas memórias
Recordar-me-ás, sorrindo
Sonhando com o passado
Abrigado num cantinho
Do teu fatigado coração.

Um dia
Eu serei apenas uma recordação
Suave como o vento
Leve como uma pena
Mas meigamente arreigada
No teu doce coração

Um dia
Enganarei a vida
E no livro grosso do tempo
Escreverei o meu próprio fado
Desenharei as cores do meu caminho
Pintarei o cinzento do meu destino
No verde cintilante da esperança

Serei o espelho da tua alma
Onde verás toda a pujança do meu querer.

Um dia
Eu serei aquilo que anseio ser.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Marasmo poético


Foge-me a inspiração
Atordoam-se as palavras
Emudece-me o coração
Esvazia-se a mente
As mãos… ah! As mãos
Aniquilam-se desalentadas
Mudo permanece o papel
Não consigo poetar
Escrever o que me faz desejar
Já nada me inspira
Nem esta dor que permanece
Nem as lágrimas dos meus olhos
Que não estancam
Nem o murmúrio do mar
Segredando-me baixinho
Nem a paisagem inebriante da vida

Nada, mas nada me faz inspirar…

Porque me abandonaste inspiração?
Embala-me novamente na tua poesia.
E faz falar meu coração.

domingo, 25 de maio de 2008

Eu vi essa ave

Eu vi essa ave
Voando em liberdade
Planando o meu mar
Tumultuoso e orvalhado

Eu vi essa ave, sim
Faminta e exausta
No meu ombro descansou
Chilreando baixinho
Palavras doces de carinho

Trazendo novidades
Do outro lado do mar
Mitigando a saudade
Que teima em ficar

Meu coração rejubilou
Com tão linda melodia
É a melodia da ternura
Enviada com sabedoria.

O mar amainou
O meu olhar brilhou
O sol enxugou
As penas molhadas da ave
que voou em liberdade

Recuperou alento
Chilrou a mensagem
E Voltou a voar
Até perder de vista

Levando nas patas
Uma flor perfumada
Com a fragrância
Da minha terna lealdade

Sabe o que fazer dela
E concluir a missão
Entregá-la docemente
Á “musa” da minha inspiração
.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Presa na calada da noite


Presa na calada da noite
Percorro a alameda da escuridão
Sinto as raízes da árvore secular
Enrodilhar-se no meu corpo desnudo
As folhas roçam-me incessantemente
Na cadencia do sopro gélido da penumbra
As gotículas orvalhadas de cinza
Penetram na minha epiderme descolorida
Não sinto o bater do coração
Gelado pelo iceberg da alma enegrecida
Meus olhos trespassam a escuridade
Tentando ouvir-te na claridade do dia
Mas impossível
A barreira da 5ª dimensão
Ergue-se sombria
Possuidora
Da linha dimensional do tempo
E tu cada vez mais distante
Continuas em outra dimensão
Minha boca quer gritar, mas…
Nenhum som torna-se audível

Eu permaneço presa na noite
Sem nada poder fazer
Deambulando na escuridão
Á espera de transpor esta dimensão.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Amiga linda


Um dia encontrei-te, graciosa
Na berma da minha vida
Segurei-te nas minhas mãos trémulas
Com delicadeza e ternura
Receosa, que pudesses definhar
Plantei-te … bem profundo
No jardim da minha existência
Onde mais pulsava a emoção
Reguei-te todos os dias
Com o néctar da minha dedicação
Não murchaste, cresceste majestosa
Enaltecendo todo o meu viver

Hoje, relembro o passado
Contemplo o meu jardim
E vejo-te viva, radiosa, jovial
Ondulando ao sabor da brisa
Que me afaga o coração

És a flor mais perfumada
Das fragrâncias do meu jardim

Não és ouro, nem prata…
És muito mais do que isso
És a flor mais rara que existe
A mais meigamente amada
Enraizada dentro de mim.

Será que consegues sentir
A quão preciosa és para mim?

sábado, 17 de maio de 2008

Delirare

Acaricio com os meus dedos trémulos
Os contornos aprazíveis do teu rosto
Beijo docemente um a um
Os teus olhos radiantes
Reflexo do teu pulcro ser

Olho-te apaixonadamente
Delicio-me com a tua volúpia
Sinto-te estremecer

Beijo os teus lábios
Pecados da minha insânia

Mendigo ao tempo que pare

Sussurro, palavras doces de carinho
Prolongando o teu ser
No desvario do meu desatino

Deliro, não perguntes porquê
Não tenho explicação
Deliro meramente…
Sem qualquer contestação

Entregando o meu coração
No concavo da tua mão

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Sou o fantasma da dor



Sou o fantasma da dor
Preso no tempo infinito
Soluço, mas ninguém me ouve
E tu, porque não me ouves?
Um dia ouviste-me…

Vagueio na imensidade da vida
Perdida, sem direcção
Na noite pardacenta da soidade
Deste amor que me afaga o coração
Ouves-me? Não… eu sei
Como podes ouvir um fantasma
Disperso, na 5ª dimensão?
Sou o fantasma da dor
Preso no tempo
Em completa meditação
À espera de concluir o seu ciclo
Transmutar-se novamente
Na esfera da humanização
E voltar a viver
Em plena libertação

Talvez assim me oiças
Quando eu te murmurar baixinho
Não me abandones, fica
Aquece a minha alma
Com o teu sorriso e o teu carinho.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Contemplei perplexa
Os pedaços do meu coração
Dispersos na calçada da vida
Caídos, desamparados
Sem rumo, sem união
Gemendo baixinho
Na mais completa solidão

Juntei-os cuidadosamente
Colei-os com lágrimas ardentes

Um a um voltaram a vibrar
Unidos, palpitaram num só
No meu remendado coração

Audaz, saltou do peito
Alcançou outra dimensão
Vagueou pelo universo
Saboreando o néctar da vida
Acreditou novamente em si
Na capacidade de sonhar
Acarinhando este meu corpo
Na insânia de amar

Segredando-me docemente
A razão de tanto querer lutar.

domingo, 11 de maio de 2008

A ti enfermeiro, gente que cuida de gente

A ti enfermeiro
Gente que cuida de gente
Amado, criticado
Desejado, tolerado
Esquecido no tempo da bonança
Querido no tempo de sofrimento

A ti enfermeiro
Que suportas a dor
No olhar de um doente
Que ris, quando queres chorar
Que amansas o teu coração
Quando te apetece gritar.
Que abafas a mágoa de seres gente

A ti enfermeiro que vagueias
Velando na calada da noite
Aqueles que confiam em ti
Em noite infindas, sofridas
Lutando contra a morte e o tempo.

A ti enfermeiro que mitigas
A alma e o corpo de quem geme
As dores de ser simples mortal

A ti enfermeiro que enalteces
O sentido da vida
A dignidade humana
Esquecendo que também és gente.

A ti, a minha homenagem
12 de Maio dia internacional do enfermeiro

sábado, 3 de maio de 2008

Sou mulher, mãe… predestinação


Sinto-te no meu útero
Ameigo-te
Floresces em amor
Consomes os nutrientes da vida
Ávida de querer viver
O tempo é efémero

Sinto a tua alacridade
Agitas-te no líquido amniótico
Tentando transmitir o teu deleite

Sinto-te crescer, pronta para nascer
Meu corpo transformado
Estremece de ternura e comoção
A dádiva da vida, acontece

Escuto o teu choro e choro contigo
Contemplo-te fascinada
Tremula de emoção
Acarinho-te nos meus braços
Olhas-me… céus
Os teus olhos são dois lagos
De águas cristalinas
Que detêm-se no tempo intemporal

Sou a força motriz da tua evolução
Musa de poetas, compositores
Pintores, escultores, artesãos…
Escultura em constante modelação

Sou mulher, mãe… predestinação

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A tela da minha imaginação

Pinto-te numa tela
Mesmo sem saber pintar
Delineio as cores do teu rosto
Acentuo o traço do teu sorriso
Os contornos do teu corpo
Pinto-te numa aguarela
Com as cores da ilusão

Olho-te, admiro-te
Magistralmente esculpido
Na tela da minha imaginação

Ganhas vida, falas-me, sorris…
Um sorriso enigmático e sensual
Que me provoca miscelânea de sensações
Irrefreáveis…alvoroçando o meu coração

Encerro suavemente as pálpebras
Consinto que me invadas sofregamente
E lá, no amâgo do meu ser
Deixo-te feliz, permanecer.

Mas a minha dor não desaparece
Silenciosamente permanece
Abafada pela força da razão

Contemplo-te uma vez mais
Olhas-me e do teu rosto
Que eu delineei.
Sulcam lágrimas

Manchando a tela da minha imaginação.