sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Quero-te, veneno de mim


Quero-te sol, lua, terra
quero-te a ti
veneno de mim
lágrimas pérolas dosificadas
que resvalam suavemente
pela face outonal
renascido por ti primavera
só por ti flor do meu jardim
raiva existencial racional de ti
que suaviza em mim
nestes caminhos lamacentos
de uma alma camuflada
sem sul, leste ou oeste
só norte em ti
ternura de mim
incontrolável
de ser assim por ti
sem ouro, sem prata
como um tesouro lançado
ao vento num afago persistente
liberto de mim.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Sou simplesmente vida


O mar magnetiza o meu olhar
agita as mais incontroláveis pulsões
provoca um furor impúdico de sulca-lo
sem corpo, sem barco, sem inibições
somente com a vontade do querer

Plano a plenitude desse mar dócil
vislumbro muito além,
para lá do horizonte anil
onde o tudo e o nada acontece
em paralelos existenciais

Perco-me em ti, em mim…

Já não sou quem sou
sou abelha, saboreando
o néctar desse pólen primaveril
sou águia rompendo o firmamento
mergulhando no vazio do nada
sou brisa que docemente em ti sopro
sou gente que vagueia junto a ti
na orla invisível de mim

Sou simplesmente vida
que ocorreu em ti
neste poema que permanece
somente em mim

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Na simplicidade das coisas




Assim sou eu, assim somos nós poetas….

Na simplicidade e na beleza das coisas,
devia estar a virtude….



Musica de Pedro Abrunhosa
Revisado por Pedro Ramoa

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Espero-te simplesmente


Espero–te simplesmente
No silencio da noite que me aconchega
Nas manhãs frias Outonais
que brotam do verão findo

O tempo passa sem me acolher
o nada acontece
numa monotonia gasta
num poema cinzelado
de palavras amargas de mim

Autonomamente vagueam
pelo papel indolente
sem pejo, sem inibições, atrevidas
conscientes do querer intimo
de gritar livremente
na quietude dos fonemas

Palavras e mais palavras
profetizam-se o destino
estigmatizado por temporais
destruidores de nós
por emoções castradas
por desejos acorrentados
nas profundezas do icebergue gelado
sufocando a sublimidade
do sentimento arquejado

Revolto-me, grito
libertando-me do destino
que não será meu

Elevo-me para lá de mim em ti
amaino os temporais vindouros
afago o tempo ancorado
deixo-me penetrar por ti
cegueira consciente, silenciosa
esquecida de mim

Espero-te simplesmente

domingo, 5 de outubro de 2008

Transcendência de querer


Rasgo os pedaços desse poema
Sorvo o conteúdo clandestino
Nas entrelinhas escritas
Desses versos fragmentados
Em representações doridas
Em pensamentos abstractos
De ideias pré concebidas
De um coração magoado

Voo na cegueira de mim
ao chamamento profano
do silencio da tua voz

Salto no imaginário….

Transmuto-me em partículas
de sentires devassos
em solfejos desenfreados
em melodias descompassadas
de um violino ébrio
do teu proscrito sorriso
arraigado em mim.

Perco-me nesse som que não é meu
nessa transcendência de querer
o que, no tempo se perdeu

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Desejo mórbido de matar-te


Hoje, acordei furibunda
E antes de sentir o calor do sol
Romper pela janela entreaberta
Senti um desejo mórbido de matar-te
Não com balas, nem com facas
Mas com pétalas de rosas vermelhas
Imersas em pedaços da minha alma dolente
Matar-te com águas perfumadas
Oriundas de nascentes cristalinas
Das montanhas húmidas de saudade
Matar-te raivosamente
Com o afago das minhas mãos
Trémulas de desejo
Por tanto querer acariciar-te
Matar-te com o soluço da minha voz
Sedenta da tua

Sabes… é isso o que me apetece fazer
Todos os dias quando acordo
E a tua lembrança rasga a minha mente
Como um vendaval de ar fresco
Perfumado com a fragrância do teu sorriso.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Sento-me ao lado do tempo


Sento-me ao lado do tempo
do tempo que o tempo me dá
falo-lhe sofregamente
do tempo que já não está
ouço-o sorrir
em gargalhadas de luar
estremecendo-me docemente
como se me quisesse afagar
sinto-me seduzida
pelo tempo que o tempo me dá
pergunto-lhe porquê
se o tempo passado será.

E no silêncio do tempo
vislumbro a resposta
que meigamente o tempo me dá

domingo, 17 de agosto de 2008

Desespero existencial


Hoje, sento-me à beira do abismo
Olho a rocha escarpada
Perpendicular ao mar
Esse mar revolto que me atrai
Hipnotizada sinto o anjo negro
Num abraço de morte
O negrume penetra minhas entranhas
Meus olhos raiados de breu não te vêem
Raízes seculares sugam a água da encosta
Meus pés desnudos estáticos
Pisam os espinhos das rosas mortas
No céu as nuvens pardacentas
Cobrem-me de saudade
Na minha mente imagens pintadas de sonhos
Rasgam-me a alma como garras felinas
O meu corpo alado ergue-se
Pronto a arrojar-se
No escarpado negro da morte
Minha mente hesita
Meu corpo estremece de desejo
É tão fácil voar até ao mar
Permanecer voando no infinito
Não sofrer, não pensar
Apenas voar, sem passado
Sem presente, sem futuro
Sentindo a alma navegar
Ao sabor da brisa divina
Ah! como é tão fácil
Morrer e não pensar.
Atiro-me feliz
Nos braços negros do vácuo
Sucumbo mais e mais
Sem gritos, sem dor
Seduzida pela pulcritude do limbo

No limite do teu desespero existencial, é isso que sentes, tu que queres morrer? Interrogo-me perplexa, sem respostas e tu amigo que lês este poema sabes responder?
Porque desiste de viver aqueles que se suicidem?
Que desespero tão profundo os levam a querer morrer, será mais fácil desistir ou lutar pela vida? Reflecte, analisa e conclui ….


Chama bravia


No meu peito arde a chama da ilusão
que percorre o meu corpo
em autentica combustão

Meu corpo desnudo
deixa-se envolver pelo fogo impetuoso
que brota do lampejo do passado

Mergulho nas cinzas
dispersas pela terra calcinada

Gritos silenciosos emergem
da garganta esfacelada
de tanto bradar

Bebo o passado límpido
como um doce veneno que me embriaga
e provoca-me espasmos de prazer fugaz

A mente lapida
como a lâmina de uma navalha
o esquecimento

Mas teimosamente a chama bravia
arde majestosa revoltando-me….
afagando-me… e nada fica igual.



terça-feira, 5 de agosto de 2008

Quantas vezes


Quantas vezes, contemplei o mar
perdendo-me no anil do horizonte

Quantas vezes, aguardei
que viesses amainar
a minha saudade perene

Quantas vezes, almejei ser alga
sentir a carícia das ondas
e mergulhar no afago do teu corpo

Quantas vezes… permaneci
sentada na margem da vida
não sentindo o tempo passar
mas sentindo o pranto resvalar
beijando docemente o calhau

Quantas vezes, ansiei o teu sorriso
afagando a minha face dorida

Quantas vezes, o meu coração parou
fatigado, atordoado, perdido…
palpitando somente
com o murro da esperança


Quantas vezes, desejei loucamente
procurar-te por ai…

Quantas vezes, ambicionei ser anjo
apertar-te no calor do meu corpo
e transformar os teus pesadelos
em sonhos perfumados de jasmins

Quantas vezes desejei-te
e acreditei
que o destino te trouxesse
por fim


segunda-feira, 14 de julho de 2008

Insanidade

Perco-me
nos caminhos impetuosos
do teu corpo febril

Analiso cada palpitar
desse teu louco coração
Elaboro tecnicamente
um diagnóstico concludente

Insanidade

que deprava deliberadamente
o meu corpo imprudente

(Tu doce veneno, chamado paixão)

Odores penetrantes flutuam no ar
Mãos vibrantes movem-se suavemente
Olhos ávidos penetram-se
Bocas sequiosas murmuram-se
Rostos inflamados incendeiam-se
A proximidade é embriagante
Trôpegos os corpos agregam-se

A noite delonga-se
adiando o amanhecer
Os cumes das árvores
embaladas pela brisa nocturna
Docemente entoam cânticos

E os corpos permanecem
alheados…. insanos

terça-feira, 8 de julho de 2008

Sou peça de um jogo de xadrez
Jogada pela mão versada da vida
Movimenta-me nas quadrículas negras
Ao sabor do seu desvario
Coloca-me estrategicamente
Em consonância
Com a jogada astuciosa do destino
Posicionado do outro lado do tabuleiro

Destino e vida disputam-se
na ganância de vencer

as peças movem-se sem vontade própria
rei, dama, bispo, torre, cavalo
eu sou o peão, a alma deste jogo
que a vida e o destino se apressam em jogar

Infinitamente…

sábado, 5 de julho de 2008

Não consigo deixar de poetar

As nuvens deslizam suavemente
Pelas encostas escarpadas
Nebulizando o verdejante
Do arvoredo primaveril
O azul do céu espreita timidamente
A serenidade é exímia
A plenitude invade-me
Não consigo deixar de poetar
A paz fugaz é sedutora
Meus olhos secam do mareje ocular
A brisa fresca arrepia-me a pele
As árvores agitam-se
dançando ao sabor do vento
Como se me quisessem encantar

(murmurando docemente)

visualiza a nossa beleza
Sente dentro de ti a nossa força
Liberta-te e saboreia a vida
que ainda tens para viver
transmuta para o papel sequioso
o que a alma sente
e a razão já não quer rejeitar

Um poema infantil ou de amor?

A porta sombria, permanece fechada
Eu não consigo lá penetrar
Bato docemente na madeira
Mas tu não me consegues visualizar
Sei que ouves, sim
O arquejar do meu coração
Por isso mesmo não a abres
Com medo da aproximação
Mas tu sabes muito bem
Que eu entendo a tua posição
Só que é doloroso demais
Não conseguir uma migalha
Da tua atenção

Por isso um dia… cansada
Numa joaninha transformar-me-ei
E sofregamente penetrarei
Na frecha da porta sombria
Percorrerei ansiosamente
Esvoaçando
A distância que separa-me de ti
Poisarei no teu cabelo
Num afago sem fim
E as tuas mãos tremulas
Por momentos, em mim pegarão
Acarinhar-me-ás sem sufocação
E eu pobre joaninha, feliz voarei
Porque consegui por fim
Um pouco da tua atenção.

Sabe bem



Sabe bem
voltar a sentir-te
Com a mente liberta de cafeína e opiáceos

Sabe bem
relembrar o tango dançado
Sem preconceitos, tentadoramente
Um minuto, transformado
Em momentos de intensa paixão.
Vividos no plano dos sentidos.
Arreigados em seres vibrantes
em alerta sentimental.

Um tango dançado no bordo linear
Do desejo incontido
Em dois corpos desconhecidos
inventando-se nesse momento único
no universo da sedução

Sabe bem voltar a senti-te
sem drogas a atrofiar a mente
Hum… sabe tão bem