Sento-me ao lado do tempo
do tempo que o tempo me dá
falo-lhe sofregamente
do tempo que já não está
ouço-o sorrir
em gargalhadas de luar
estremecendo-me docemente
como se me quisesse afagar
sinto-me seduzida
pelo tempo que o tempo me dá
pergunto-lhe porquê
se o tempo passado será.
E no silêncio do tempo
vislumbro a resposta
que meigamente o tempo me dá
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Sento-me ao lado do tempo
domingo, 17 de agosto de 2008
Desespero existencial

Olho a rocha escarpada
Perpendicular ao mar
Esse mar revolto que me atrai
Hipnotizada sinto o anjo negro
Num abraço de morte
O negrume penetra minhas entranhas
Meus olhos raiados de breu não te vêem
Raízes seculares sugam a água da encosta
Meus pés desnudos estáticos
Pisam os espinhos das rosas mortas
No céu as nuvens pardacentas
Cobrem-me de saudade
Na minha mente imagens pintadas de sonhos
Rasgam-me a alma como garras felinas
O meu corpo alado ergue-se
Pronto a arrojar-se
No escarpado negro da morte
Minha mente hesita
Meu corpo estremece de desejo
É tão fácil voar até ao mar
Permanecer voando no infinito
Não sofrer, não pensar
Sem presente, sem futuro
Sentindo a alma navegar
Ao sabor da brisa divina
Ah! como é tão fácil
Morrer e não pensar.
Atiro-me feliz
Nos braços negros do vácuo
Sucumbo mais e mais
Sem gritos, sem dor
Seduzida pela pulcritude do limbo
No limite do teu desespero existencial, é isso que sentes, tu que queres morrer? Interrogo-me perplexa, sem respostas e tu amigo que lês este poema sabes responder?
Porque desiste de viver aqueles que se suicidem?
Que desespero tão profundo os levam a querer morrer, será mais fácil desistir ou lutar pela vida? Reflecte, analisa e conclui ….
Chama bravia

No meu peito arde a chama da ilusão
que percorre o meu corpo
em autentica combustão
Meu corpo desnudo
deixa-se envolver pelo fogo impetuoso
que brota do lampejo do passado
Mergulho nas cinzas
dispersas pela terra calcinada
Gritos silenciosos emergem
da garganta esfacelada
de tanto bradar
Bebo o passado límpido
como um doce veneno que me embriaga
e provoca-me espasmos de prazer fugaz
A mente lapida
como a lâmina de uma navalha
o esquecimento
Mas teimosamente a chama bravia
arde majestosa revoltando-me….
afagando-me… e nada fica igual.
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Quantas vezes

perdendo-me no anil do horizonte
Quantas vezes, aguardei
que viesses amainar
a minha saudade perene
Quantas vezes, almejei ser alga
sentir a carícia das ondas
e mergulhar no afago do teu corpo
Quantas vezes… permaneci
sentada na margem da vida
não sentindo o tempo passar
mas sentindo o pranto resvalar
beijando docemente o calhau
Quantas vezes, ansiei o teu sorriso
afagando a minha face dorida
Quantas vezes, o meu coração parou
fatigado, atordoado, perdido…
palpitando somente
com o murro da esperança
procurar-te por ai…
Quantas vezes, ambicionei ser anjo
apertar-te no calor do meu corpo
e transformar os teus pesadelos
em sonhos perfumados de jasmins
Quantas vezes desejei-te
e acreditei
que o destino te trouxesse
por fim
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Insanidade
Perco-me
nos caminhos impetuosos
do teu corpo febril
Analiso cada palpitar
desse teu louco coração
Elaboro tecnicamente
um diagnóstico concludente
Insanidade
que deprava deliberadamente
o meu corpo imprudente
(Tu doce veneno, chamado paixão)
Odores penetrantes flutuam no ar
Mãos vibrantes movem-se suavemente
Olhos ávidos penetram-se
Bocas sequiosas murmuram-se
Rostos inflamados incendeiam-se
A proximidade é embriagante
Trôpegos os corpos agregam-se
A noite delonga-se
adiando o amanhecer
Os cumes das árvores
embaladas pela brisa nocturna
Docemente entoam cânticos
E os corpos permanecem
alheados…. insanos
terça-feira, 8 de julho de 2008
Sou peça de um jogo de xadrez sábado, 5 de julho de 2008
Não consigo deixar de poetar
Pelas encostas escarpadas
Nebulizando o verdejante
Do arvoredo primaveril
O azul do céu espreita timidamente
A serenidade é exímia
A plenitude invade-me
Não consigo deixar de poetar
A paz fugaz é sedutora
Meus olhos secam do mareje ocular
A brisa fresca arrepia-me a pele
As árvores agitam-se
dançando ao sabor do vento
Como se me quisessem encantar
(murmurando docemente)
visualiza a nossa beleza
Sente dentro de ti a nossa força
Liberta-te e saboreia a vida
que ainda tens para viver
transmuta para o papel sequioso
o que a alma sente
e a razão já não quer rejeitar
Um poema infantil ou de amor?
Eu não consigo lá penetrar
Bato docemente na madeira
Mas tu não me consegues visualizar
Sei que ouves, sim
O arquejar do meu coração
Por isso mesmo não a abres
Com medo da aproximação
Mas tu sabes muito bem
Que eu entendo a tua posição
Só que é doloroso demais
Não conseguir uma migalha
Da tua atenção
Por isso um dia… cansada
Numa joaninha transformar-me-ei
E sofregamente penetrarei
Na frecha da porta sombria
Percorrerei ansiosamente
Esvoaçando
A distância que separa-me de ti
Poisarei no teu cabelo
Num afago sem fim
E as tuas mãos tremulas
Por momentos, em mim pegarão
Acarinhar-me-ás sem sufocação
E eu pobre joaninha, feliz voarei
Porque consegui por fim
Um pouco da tua atenção.
Sabe bem
Sabe bem
voltar a sentir-te
Com a mente liberta de cafeína e opiáceos
Sabe bem
relembrar o tango dançado
Sem preconceitos, tentadoramente
Um minuto, transformado
Em momentos de intensa paixão.
Vividos no plano dos sentidos.
Arreigados em seres vibrantes
em alerta sentimental.
Um tango dançado no bordo linear
Do desejo incontido
Em dois corpos desconhecidos
inventando-se nesse momento único
no universo da sedução
Sabe bem voltar a senti-te
sem drogas a atrofiar a mente
Hum… sabe tão bem
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Quero olhar-te, ver-te e sentir-te
não quero ser imortal na minha intangibilidade
Quero olhar-te, ver-te e sentir-te bem fundo
Olhar os teus olhos de mel
Ver de perto as rugazinhas,
quando tu docemente sorris.
Ver o brilho de felicidade neles retidos
Ver a beleza contida nesse olhar marejado
Ver a construção de um poema teu
Ver o que vês na poesia que eu esculpo
Quero olhar-te e ver-te nem que seja numa foto,
numa aguarela imaginada por mim
(na intangibilidade não quero ficar)
Quero sim sentir, olhar e simplesmente estimar.
até ao dia que te vou abraçar
sentir o teu corpo pleno, no meu
deixar tagarelar o meu coração
acariciar os teus cabelos sedosos
murmurar-te ao ouvido
por favor, sente-me
e leva-me contigo
mesmo que não me queiras ver
Escrito a 23/06/08
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Não me peças...

quarta-feira, 18 de junho de 2008
Momento circunscrito

Deitada numa cama do hospital
Penso…nem eu sei em quê
Na minha mente,
imagens surgem do passado, do presente
como um comboio expresso, veloz
sem se deter em nenhum apeadeiro
Mescla de sentimentos emergem
de um vulcão, ainda em ebulição
Lava incandescente invade
a montanha do meu sentir
formando rios de lama
que se extinguem
ao contacto do iceberg da razão
O expresso continua a deslizar
rapidamente
A minha mente
eterizar-se do passado, do presente
O tempo pára ao tic-tac do relógio
O meu ser ausenta-se
suspenso do comboio expresso
que continua em andamento
A porta da alma escancara-se
de repente
O sonho penetra sofregamente
Na mente atordoada
O futuro… imagina-se
O comboio expresso imobiliza-se
O sol renasce brilhante
Numa primavera apetecível
Gotas de orvalho penetra
a lava vulcânica
arando o solo
a semente é lançada
flores campestres perfumam
a montanha do sentir.
O presente é passado
O amanhã é esquecido
O sonho é intensamente vivido.
Escrito a 12/07/08
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Luar sedutor
Acordada no silencio da noiteSuspensa pelos filamentos
prateados das estrelas
Amparada pela sua manta sideral
Pairo na aragem do tempo
tal fantasma à procura
da casualidade existencial
das interacções cósmicas
Os meus olhos contemplam-te
Peço-te perdão, lua cintilante
Por ter provocado
O relampejar dos Deuses
Ao enfeitiçar-me do teu luar sedutor
Que me trajou de ternura
Alumiando minha existência
Não escutei a voz da razão
Que sussurrava baixinho
Pára, amordaça o teu coração
não o deixes sentir
Pára, curariza-o, paralisa-o
não o deixes pulsar
Pára, não o deixes voar.
Vagueio pelo espaço penitenciando-me
Sentindo o espinho da saudade
As pétalas da ternura
A chama do desejo
A vontade de voltar a sentir
A quentura do teu luar
Estendo a minha mão trémula
Quero afagar-te…
Mas como? Interrogo-me
Como posso ansiar tocar-te
Eu insignificante mortal?
Gotículas orvalhadas deslizam lentamente
Molhando meu corpo volatilizado
Tu olhas-me, sorris tristemente
Permanecendo em constante rotação.
E eu continuo a pairar
Na aragem do tempo
Em absoluta meditação
sábado, 7 de junho de 2008
Sonho de maresia
Estendo - me no calhau da praiaSobre as macias algas marinhas
Envolvo-me de suave maresia
Aqueço-me com a manta solar
Meu corpo vestido de melancolia
Divaga….penetra
Na profundeza do oceano
Acaricia a estrela-do-mar
Delicia-se com as doces melopeias
Que ecoam dos acordes da harpa celestial
Tocando lúbricamente o tango
Os meus olhos fascinam-se
Com as medusas reluzindo
Das cores da paixão
Rodopiando sensualmente
Mais e mais, tornando-se unas
As conchas cantadeiras
Soltam cadenciadamente
Pérolas de amor
Inundando a vastidão marinha
De essências da vida
Eu continuo a contemplar
As medusas libertas
Entrelaçadas a dançar
O tango sedutor da vida
Permaneço imóvel, fascinada
E sinto o salgado dos meus olhos
Diluir-se nas torrentes oceânicas.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Um dia...

Um dia
O passado ficará inerte
Nas ruínas do tempo
Num ponto fantasma qualquer
Um dia
Eu serei ave, foca, leoa…
Voarei na vastidão do firmamento
Mergulharei na profundura do mar
Vaguearei pela densa floresta
Serei poeira cósmica
Diluída no universo astral
E quando eu já não existir
Tu procurar-me-ás
No recanto das tuas memórias
Recordar-me-ás, sorrindo
Sonhando com o passado
Abrigado num cantinho
Do teu fatigado coração.
Um dia
Eu serei apenas uma recordação
Suave como o vento
Leve como uma pena
Mas meigamente arreigada
No teu doce coração
Um dia
Enganarei a vida
E no livro grosso do tempo
Escreverei o meu próprio fado
Desenharei as cores do meu caminho
Pintarei o cinzento do meu destino
No verde cintilante da esperança
Serei o espelho da tua alma
Onde verás toda a pujança do meu querer.
Um dia
Eu serei aquilo que anseio ser.