sábado, 5 de fevereiro de 2011

Assim...pessoa




















Sou nada no vazio que me consome
nesta inquietação letal,
laje que agasalha o ardor do meu sangue,
já não canto a primavera
nem danço nas falésias do teu corpo

Sou musgo amarelecido,
palanque de fogachos demoníacos
afogueando os contornos do teu rosto,
íris cega da própria cegueira,
carvão desactivado nas brumas do olhar,
vida que se esvai, no longínquo de mim…
um tudo e um nada nesse mar enchente

Sou… o que sou, modelação viva de ti
na impecabilidade do teu próprio existir

Sou eu e tu irrompendo em mim
assim… pessoa

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Solto a alma
















Solto a alma nas folhas tingidas
de aromas rubros do pretérito
e nas margens desmerecidas,
prensados fragmentos de mim

São colagens de ternuras
que me sussurram de ti,
são arremessos de palavras
que o silêncio caligrafou
e outros artefactos
que a aragem bravia
me trouxe e me doou

São imagens furtadas
ao livro que me escreveu,
rascunhos impúdicos, lapidados
pela tinta de Morfeu
são testemunhos docemente cativos
nas paginas que não se perdeu

Sou eu, és tu, é…
a vida que nunca se esqueceu
dos rascunhos que o tempo estagnou.


(Solto a alma nas folhas tingidas do pretérito)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A vida torna-se grito

Da roseira brava sem rosas
d`um jardim sepulcral
espreita os espinhos com dor
e nos caules amarelecidos
perde-se a clorofila sem cor

Cantam os pássaros sem asas
nas arvores desnudas de flor
uiva o vento em temporal
e as chuvas gotejam,
entristecidas
a fugidia luz color

No dia perfaz-se a noite
e a noite sepulcro d´ amor
na sombra escura do penhasco
o bramido mudo do Adamastor

E eis que….

Nas folhas desenha-se a gota
do espesso orvalho matinal
e na terra por arar, brota
a semente de todo esse areal

Das rosas vivas flúi o pólen
deste jardim intemporal
e na doce brisa outonal
sopra o aroma dourado
do vasto milheiral

E a vida torna-se grito
no silencio por falar

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Esboço
















São as telas desmerecidas
que amparam o meu cansaço
é o prelúdio entardecido
de mais um…
pequeníssimo traço

São as glândulas degustadas
que saboreio
entre os dissabores dúbios
pincelados
nas cores com que te pinto

São as gotículas molhadas
de uns lábios feridos
numas mãos que esculpem
o invisível sentido
e os pés que deslizam
no soalho contorcido

È o olhar que cega
à luz do próprio dia
é o pincel repousando
nos braços das madrugadas

Sou eu... esborratada
pelo quadro que não pinto
e nos traços escuros da noite
traço-me de insana mudez
no algor do que sinto

domingo, 19 de dezembro de 2010

Na geometria da vida

Na baia do teu peito
há um refúgio
uma vaga que embala
as insónias cativas de ti,
uma luz que cinzela
o fulgor do teu olhar,
um ponto que me atrai
uma recta que acelera
o fim do meu cansar

Na geometria da vida
uma esfera perdida
num eixo desviado
d`uma terra carecida
um sepulto florido
d`um jardim escondido
num tempo invertido
um quadrado alongado
d`uma estrada pedregosa
em bermas amortalhadas

E uma meta desconhecida
sinuosa… sob o brilho constelar

sábado, 20 de novembro de 2010

Geme a saudade

Geme a saudade
nas cordas de uma guitarra
Que dizer se a garganta sufoca?
que fazer se o corpo paralisa
na ternura de ser vida…
só fica o ouvido,
a repetição do gemido
que arranca o coração,
matéria incandescente
acariciando-o com sons
selvagens, pulsantes
delirantes, carentes

Que fazer, que dizer
quando a guitarra geme
no meu peito gaivota,
mar em evasão…
desenfreado, manso
inundando o olhar que te sente
num momento, numa vida
no tempo sem tempo de ser tempo

Toca guitarra toca,
inventa o meu fado
no crepúsculo do amanhecer,
na tarde que quer partir
sem mim

Toca guitarra não pares, fica..
desliza no meu peito… prenhe
deixa-me ficar aqui
no silêncio da tua voz
falando-me baixinho,
gemendo em mim
o meu próprio destino

Toca guitarra toca
a saudade de alguém

domingo, 7 de novembro de 2010

Perdido o meu corpo




















Perdido no perfume estonteante,
meu corpo flutua no lúbrico verbo,
do irracional desejo em fulgor
diluem-se os sentires extrínsecos
nos intrínsecos vertiginosos do amor

O gemido silencioso torna-se diamante
no prazer suspirante da doida luxúria
danças exóticas sucedem-se em vértice
no crepúsculo espasmódico da incúria

O olhar perde-se na brandura longínqua
goteja os meus olhos de prazer roubado
torna-se premente a sublime presença
do corpo distante num tempo parado

Meu corpo relaxa trajado de doce paz
no murmúrio sussurrante do ser amado
adormeço nos braços cálidos da quimera
tal pássaro deslizando num sonho alado

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Destino escondido

No lago ondulante do pensamento
há uma cascata turbulenta
tombando
um pássaro hibernando na raiz
da liberdade
um vento timbrado, que sopra
gemendo
um céu transvertido
lágrima

paisagem rascunhada…. cinzenta

mas no rabisco vermelho patente
há uma flor que cresce no abismo,
esquecida
pétalas e espinhos perfazem-se
rosa imergida
no licor quente da própria
vida

há um consolo que penetra
o olhar perdido….
um papel escrito
de um livro ainda não lido
um destino escondido
d`uma vida sentida
a minha

domingo, 10 de outubro de 2010

Na palma da minha mão


















Na palma da minha mão
há o reflexo lapidado de um olhar,
desse olhar que se perde
no interstício da alma minha,
há um tudo e um nada,
como a vida que desliza
na ponta da asa de uma gaivota cega

Na palma da minha mão
há um sonho, uma estrela dançante
num olhar gotejante
de corpúsculos cristalinos de sal,
torrente fluindo num pedaço de mar
do teu mar, pertinho de ti

Na palma da minha mão
tatuado a lume e lágrimas,
há um diamante, enobrecido pelo tempo
um tempo vão… forçado… o teu

Na palma de uma mão
na lonjura das vagas marinhas, sem nexo…
há um olhar vazio….. falho de algo...
de mim

sábado, 2 de outubro de 2010

As pétalas do teu corpo
















Desnudo as pétalas do teu corpo
em dedos febris me consumo
do teu olhar teço pássaros de fogo
do teu cabelo bordo cascatas fome

No meu rosto cintila Andrômeda
no meu peito latejos de mariposa
na minha boca a suculenta romã
nas minhas mãos o fulgor da manhã

No torvelinho da tua alma me perco
nas vítreas gotas dos teus poros, gotejo
na aura do meu estonteamento, levito
no insano momento de languidez, feneço

E no silêncio das minhas mãos febris
poeto versos no teu corpo consoante
na embriaguês das eternas vogais,
sussurro o sibilado vocábulo, amo-te

A manhã beijou-me… hoje

















A manhã entrou-me pela janela adentro
na frescura do dia beijou-me
deliberadamente
acariciou-me com os seus raios distantes
ao de leve, timidamente
querendo ser vento que passa no momento

A manhã beijou-me…. calidamente
perdendo-se novamente no dia
como a areia escorrendo
na minha mão vibrante… vazia

A manhã partiu incerta
no meu rosto, um sorriso quente
no meu olhar uma lágrima fluindo
perdida …

A manhã beijou-me...hoje
Adormecendo-me nos braços do tempo

sábado, 18 de setembro de 2010

Faço de ti “poesia”



















Faço de ti “poesia”
o meu sustento
a minha crença do dia a dia
a minha arma, o meu lamento
o meu gemido, a minha fantasia

Faço de ti, o leito do meu sossego
o vento da minha tempestade
a seiva do meu carinho
no teu corpo versado

Faço de ti a taça de bom vinho
bebido no acto da embriaguez,
nas curvas do meu caminho,
no meu eterno destino

E lá, onde arde a desdita
faço de ti a minha guitarra,
a canção do meu bailado
o traje da minha memória
o meu destemido fado

Faço de ti “poesia”a minha saudade
a minha querença, a minha infinidade

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Infecunda liberdade
















A vida pariu o destino
abandonou-o meigamente
na janela aberta do SER
tatuando com lágrimas e risos
a brochura da alma
aprisionando-a
na liberdade de ser

Mas o SER
bastardo engravidou
de infecunda liberdade

A terra escureceu
E a vida tornou-se sombra

Torna-me imortal














Abraça-me assim… bem forte
faz-me sentir a minha própria pequenez
mostra-me a efemeridade de ser corpo
torna-me imortal na mortalidade dos sonhos
deixa-me provar o sabor da tua essência
fica comigo nesta amência permanente
neste tropeçar sôfrego de ser tempo
e mostra-me o casulo do alvorecer
no murmurar ínfimo dos dias

Abraça-me bem forte e no silêncio do vento,
o eco do teu olhar sussurra-me

Estou aqui, sente-me

sábado, 16 de janeiro de 2010

Poeta ferida


















DEDICADO A UMA POETISA ESPECIAL

Palavras viscerais e furibundas
Lavram o papel esfaimado
Chorando de ventre desnudado
A dor esviscerada da descrença
Impiedosamente soluças
Vocábulos desmembrados acutilantes
Que rasgam a íris perplexa
No negro da noite que se advinha

Cega pelos soluços atormentados
Ceifa-se a minha alma enegrecida
E nos poemas gementes que cinzelas
A marca da dor com que desvendas
As liberdades corrompidas
Dos meandros selváticos da vida
Tatuados na tua pele de poeta ferida

15/01/10