quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A tez branca da nudez

Contorce-se -nos os corpos em vultos vivos
na manhã que nos espia arregalada de espanto
e em lençóis vadios, acaricia-mo-nos delirantes
no vaivém sedento dos corpos, blasfémicos

As mãos percorrem a tez branca da nudez
em soluços trémulos, deliram insaciáveis
nos corpos orvalhados de rubra avidez

As bocas devoram-se em saborosas iguarias
desejos acre-doces de exímias  poesias
em desnudas bússolas de mapas corporais
desbravam livres tesouros ancestrais.

E o tempo dá-nos o tempo de ser tempo
num momento do tempo sem nada mais
os corpos saboreiam o bónus do destino
num caminhar fugaz de simples peregrino

Escrito a 04/11/12

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Tu vieste cobrir-me de palavras nuas

Tu vieste cobrir-me de palavras nuas
trajei-me de luar, apaguei as estrelas
deliciei-me no teu corpo…sôfrega
provando o desejo, descaradamente nua
e em orgasmos vítreos, fiz-me tua

Tu vieste cobrir-me de palavras nuas
estremeci no areal em seiva pura
e aspergi a noite de sublime loucura

Tu vieste cobrir-me de palavras nuas
o desejo morreu asfixiado de beijos
e em delírios palatais gemi solfejos

Ah! Tu vieste cobrir-me de palavras nuas
e o meu olhar projectou a cor tingida da lua

Escrito a 20/10/12

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Ah se eu pudesse

Ah se eu pudesse, num sono profundo
adormecer os fios azuis, que colijam a alma
albergar o livre branco no meu olhar
então as vozes erguer-se-iam do ventre
em monossílabos consonantes pintados
do silêncio emudecido da dor

Afluiriam os rebentos virgens das vinhas
desgarradas das densas ervas carcomidas
e jorraria o vinho, do cálice sagrado da cruz

Pudera eu adormecer os fios azuis
que coarctam o meu peito e as vozes
clamariam em clamores de liberdade

10/1/12

sábado, 3 de dezembro de 2011

Louco poema

Na quietude
clandestina da noite
voarei, subirei ao cosmos
e lá na minúscula luz da estrela,
poetarei

[disse-te]

Esvaziarei as mãos de palavras
e dos dedos as rimas
onde se soltarão os suspiros
enlaçados
de amantes fonemas

nos cativos lábios do dia
adormecerei
e nos braços do sono
no raiar de algures…
se soltarão as algemas
uma a uma
nos versos da utopia

Furibundo brotará
no entreolhar das pálpebras
o sonho
emerso no fogo da vida

E no esvoaçar dos vocábulos
entoarei num suave poema
a louca fantasia.


Escrito a 25/11/11

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

No ardor louco d`um amor nú

















Na brevidade do momento
e na impaciência do peito,
parti… tão somente

Levava o anseio na leveza das mãos
e o incenso na cor dos olhos meus

Vi no meu olhar as palavras
dos segredos ímpios do olhar teu
e as mãos soltaram-se febris
na macieza cálida do teu corpo

Calou-se embriagado o ar
suspiros ciciantes afagam-se
nas brancas paredes do quarto
e ali, no leito repleto de tempo
amam-se os corpos…..
na avidez sôfrega do tudo

Em desassossego beijam as bocas
em talhes delirantes de paixão
e o tempo brinca nos cabelos feitos fogo
dos corpos sedentos, trémulos
dádiva de serem libertação

Ouve-se o silêncio do mundo
e no leito feito do nada
o tudo acontece, como rios de lava
delirando as fortes batidas do coração

Não há medos, não há sombras
não há sempre, nem nunca
nem tempo, nem outros
só corpos redescobrindo-se
no ardor louco d`um amor nú

Escrito a 10/11/11

domingo, 30 de outubro de 2011

Algemas persistentes


















Oh mar
Amima meus pés
sussurra o soluço das ondas
diz-me porque és

Oh mar
calmo ou bravio
leito morno sem pavio
Inspira-me
perdida ando
na foz do murmurejar
que te corre de lês a lês

Oh mar
do meu olhar
de saudade marejado
na espuma que te veste
dá-me o degredo
desejado

Oh mar
que abraças
as rochas perfumadas
sois algemas persistentes
nos passos meus
atadas

Oh mar
porque insistes
invadir-me sem senão
nos dias em que te resisto
e debilmente murmuro
o tão doloroso não

Escrito a 29/10/11

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A cor da terra

No abismo
onde se reflecte a cor da terra
fenecem as asas da liberdade
num prelúdio gemente
de cordas soltas e gastas
em mãos enclausuradas
no aconchego do passado

Num horizonte embuçado de nuvens
onde o mar se perfuma da própria maresia
há um declínio liberto no cerrado da noite
um vagido silencioso na voz da madrugada
um desfraldar gélido de um vento vigil
que antecede a derradeira morada

E num leito de secas pétalas
jaz moribunda a primavera
na mente perdida no ermo do nada

Escrito a 9/10/11

domingo, 2 de outubro de 2011

Na reentrância da noite

Torno a roçar-me no reflexo vítreo do corpo
navegar num céu dourado, coberto de pólen
pendurar-me na corda que prende o rastilho
emergente da janela do meu olhar insípido
atear-me nas fagulhas púrpuras de ti, poesia
no anseio de ser simplesmente ….presença

Traço os contornos das palavras impressas
dos versos cilíndricos das silenciosas vogais
trajo de alento as vagabundas consoantes
num denso mar alvo de insónias palpebrais

A noite adormece quieta na orla do desejo
e as heras despojadas crescem enregeladas
na confluência febril das entranhas caladas
perdidamente perco-me em ti desnudada

Escrito 02/10/11

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Saudade


Além…onde as gaivotas grasnem
e o lusco-fusco abraça os montes

Lá…onde o silencio dos silêncios
grita silêncios confusos

Ao longe…onde o vento beija
os cumes adormecidos

O olhar geme … errante
no lapido fogo corpuscular
e liberta-se em fios de água
translúcidos de poesias ímpias,
esvoaçantes rasgando o horizonte
perdidas….nas tonalidades coloridas
de que são feitas as cores profundas
do profundo sonho

Algures no monte longínquo
onde o olhar desnuda
o galope do pensamento
o céu e a vida une-se na cor do desejo
liberto das profundezas da pele
no orvalho da selvática cor.

Saudade

Escrito a 20/09/11

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O sopro

Fica na reentrância do penhasco
o sopro que de mansinho afaga a dor
e nas ervas que se soltam da terra
desenha-se a luz tremula do amor

É a chama que subjuga o sopro
onde sussurram os silêncios queridos
e nas ténues acrobacias sumidas
permanece cintilante na cor da vida

Derramam-se gotas vítreas
nos reflexos iluminantes da noite
são pérolas silenciosamente coloridas
que se perdem nas mãos da própria dor

E o sopro solta-se de mansinho
galopando no agitação do amor
afaga lentamente o teu rosto ferido
numa doce carícia trajada de cor

Escrito a 1/09/11

sábado, 27 de agosto de 2011

Simplesmente voz


Sou voz perdida
no esvoaçar dos lábios
inquietos

sou tonalidade esguia
que te enfada as pálpebras
húmidas de dor

sou simplesmente… voz
dispersa no vento da vida
calada por um olhar
esquecido de mim

sou sopro remoto
no vendaval de um peito
….o teu

Escrito a 26/08/11

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Vida

São gastas as lágrimas escorridas
nas asas aladas do lamento
cores sombrias de vendavais
que se perdem ao longo do tempo

São símbolos das raízes pintadas
no corpo perdido de esquecimento
são as dubiedades do amanhecer
nas mãos abertas ao vento
em suspiros que se soltam
nas sombras ainda vigentes

Traçam-se metas invisíveis
nos rasgos acutilantes de dor
e a vida torna-se esvaída …
nos braços aconchegantes
do teu amor

Escrito a 15/08/11


quarta-feira, 27 de julho de 2011

A luz do teu olhar


O mundo corre ante os meus olhos
paisagens verdes, brilhantes de sol
fecho os olhos e é o meu mundo
que num ápice
penetra o pensamento
alagando o olhar

São cores esborratadas
neblinas matinais que se confundem
com o negro da noite
são tons escuros correndo nos afluentes
deste rio que se quer fértil
mas que se perde nas escarpas da vida

Adormeço num bote sem remos
frágil, mortal
e lá…. além, fica a luz
que me ameiga de mansinho….longe
deslizo veloz… mais além
onde ao luz do teu olhar já não me alcança
e o meu…. entristece –se
no brilho do sol e no corpo da lua

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Sinto-te nas águas vivas do Mondego


















Deslumbro-me na visão nobre do Mondego
em gestos ansiosos, semicerro as pálpebras
sinto as ondas rebolam no meu corpo translúcido
e os gemidos murmurantes da folhagem algures
funde-se com o grasnar das gaivotas
testemunhas de mim

Permaneço nessa êxtase estonteante
ausento-me na lonjura dos corpos
e na fundura da minha pele ouço-te gemer
num acariciar fecundo de um sol apaixonante
que me envolve num estado de emoção
e os vagidos do meu corpo dançam no teu corpo
em abraços longínquos que se perdem
na minha louca agitação

O ciciar do vento beija em laivos de ternura
os meus olhos encurralados no tempo
e no alaranjado entardecer de mim
sinto-te amor, nas minhas mãos paixão
em caudais de doces canduras
na foz do teu corpo vulcão

domingo, 3 de julho de 2011

Na rebeldia de sabores



















Nas pinceladas enleadas
com que pinto
os amores-perfeitos
desenhados
repousa a alegoria
da cor dos olhos teus

São traços aprimorados
pelos odores do corpo teu
tintas matizadas
na rebeldia de sabores
dos lábios meus

Dedos esculpindo-se
no ímpeto da alma minha
em esguios pincéis
escrevo na entrelinha
da tela rendilhada de cor

E no suspiro da manhã
o céu cobre-se de sol

Escrito a 24/06/11