quinta-feira, 2 de junho de 2011

Paisagem na noite
















No quarto enfarpelado de luta
desliza-me o olhar na paisagem abandonada
e na areia das gaivotas esvoaçantes
imagino na noite… errante
a silhueta do teu corpo andante
em passos deslumbrantes vestidos de cor

derramo pingos de sonho e ilusão
resvalando ao timbre do próprio coração

são momentos num momento de tempo
sonho liberto no casulo da alvorada
na noite que termino cansada
sonolento olhar na madrugada

Escrito a 31/6/11

sábado, 21 de maio de 2011

“Diz que me amas… pediste-me amor”















“Diz que me amas… pediste-me amor”


Na plenitude que oxigena o meu ventre
ânsia de ti….amo-te
neste desatino constante em te ter
em cada milésimo de segundo que te penso
….que te tenho
nos passos hesitantes que deixo marcados
na estrada da vida
nos dedos que afagam a almofada
onde descanso o cansaço do meu rosto
quando não te tenho

Amo-te
no desenho colorido
com que traço o salgado do teu corpo
no brilho do meu olhar que banha os teus
com a cor que se pintam os sonhos

Amo-te tão-somente, assim
na simplicidade com que te bebo
em inundações de sentires crepitantes
afogueando-me na avidez de ti, amor.

Sentes-me?

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Tremular das pálpebras
















Quando brotam gritos
assim… da palma das mãos
dos dedos que cantam
em olhos que se declinam
no tremular das pálpebras
nas lágrimas pousadas no corpo nú

Quando as horas se alongam
nas demoras bravias
das noites adormecidas
no recanto da estrada ….fria

E quando o sol espreitar
preguiçoso na linha do horizonte

Tu apareces na fragilidade de mortal
imergir-me no calor dos teus silêncios
assim …. Inebriantemente
e no calar das horas, amas-me…

Depois… sem pudor
vais-te nos silêncios aguçados
de fera amansada
cativo do orvalhar da noite

E as gotas deslizam
nas palmas das mãos
brotando vagidos,
em dedos que cantam
a eterna canção

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Voa para alem do limbo






Teço gerberas no teu corpo nú
em rotas bravas de sol e maresia
decanto o sabor selvagem da tua boca
em lábios de cristal embriago-me
no canto da cama por fazer

É o sol que penetra em carícia na pele
lavra a terra infecunda, carente…
ameiga as tempestades silenciosas
inunda os peitos de açucenas mil

E num voo precipitado, amamo-nos
no silêncio do mundo, falamo-nos
assim…. em sussurros espasmódicos
nos murmúrios imperceptíveis das bocas

Delineamos os contornos dos corpos
em mapas celestiais, sucumbimos mortais
em grades momentâneas, aprisionamo-nos
neste amor falcão…..liberto no rio da vida.

Gosto-te, sinto-te, liberto-te na eternidade da alma
Voa para alem do limbo, meu amor tempestade.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Heróis à Moda da Madeira” é o título do livro que será lançado no dia 17 de Abril, pelas 18h, na Fnac do Madeira Shopping e novamente no dia 19, pelas 19h, na Bertrand do Dolce Vita Funchal.
Composta por dez contos de diversos escritores madeirenses como Francisco Fernandes, Octaviano Correia, António Cruz, Elmina Teresa, Inácia Vasconcelos, Isabel Fagundes, Laura Jardim Maciel, Lídio Araújo, Susete Rodrigues e Liliana Jardim, este é a 5.º obra da colecção “Heróis à Moda de…”.Editada pela “Lugar da Palavra Editora” e coordenada por João Carlos Brito, esta colecção pretende juntar o humor ao rigor académico, contribuindo para a preservação da língua, dos regionalismos, das gírias, dos falares marginais, com textos que primam pela boa disposição.
“Heróis à Moda da Madeira” teve a coordenação de Susete Rodrigues e sucede a “Heróis à Moda do Porto”, a “Heróis à Moda do Alentejo” e “Heróis à Moda de Lisboa” e ainda, fora de colecção, a

“Francesinhas à Moda do Porto”. “Minho e Trás-os-Montes” e o “Grande Dicionário dos Falares Marginais” são os próximos títulos deste projecto, que deverão ser lançados até 2013
Um trabalho inovador que inclui ainda um “Dicionário do Vilhão”, em que estão compiladas cerca de 800 palavras e expressões bem típicas da Madeira como «Diache, isto vai dar no porco», «Dou-te uma batata nas arcas que te viro!», «Estepilha, que me vai dar a chorrica!», «Nã se vê um mosquito nas desertas», «És uma bilhardeira!» ou «Vou apanhar a abelha pró Monte».

Sofia Lacerda

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Apetece-me…amar-te

Apetece-me beijar-te
sugar os silêncios profundos
e libertar as palavras trancadas no baú
da sapiência

Apetece-me abraçar-te, expirar
o ultimo folgo que te torna frágil
e lapidar-te diamante
nas minhas mãos estrelícia

Apetece-me soltar os nós
tornar-te Apolo
talvez assim me encontrasses
à luz da candeia que me ilumina
nas noites em que te procuro

Apetece-me olhar-te
transformar os teus olhos
em estrelas esvoaçantes
relampejando os sonhos teus

Apetece-me tocar-te
bordar-te em lençóis de cetim
com os fios delicados da vida
tatuagens febris da minha
própria amência

Apetece-me……amar-te

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Na cama feita do presente

Na cama feita do presente
em lençóis imprudentes
ondeiam-se os corpos
olvidados de tudo
e no tudo que nos cerca
metamorfoseamo-nos
em sinfonias de amor na
liberdade de existirmos
em dádivas …..frementes

Nos olhares semi-serrados
de delicados solfejos
a minha boca sôfrega
….. selvática,
anseia teus lábios gulosos
….de querer

Os rostos aprisionados
no silêncio das bocas
lêem-se carentes…. desnudos
num espaço sem tempo de ser

Sentem-se os corpos em voos alados
cobertos pelo entardecer

E a tarde cai fria nos lençóis ….vazios
mas o aroma do prazer permanece bravio
na alvorada do nosso próprio viver

quinta-feira, 24 de março de 2011

O tempo morre


No céu mesclo de azul
toca o eu perdido nas gotículas
nostálgicas das nuvens
e no brilho celeste do meu olhar
penso-te….

Os mares ausentam-se
nas cavernas terrenas
sou rio correndo agarrado
à noite lunar…
despido

Trago nas águas malhadas
o meu outro eu
aquele que cega e paralisa
no vácuo doloroso do tempo

E as mares voltam a encher
embebendo-me as veias
dilatadas de ti

Deixo pegadas de pés
na terra ausente
e no ar os aromas de todas as coisas
que me faz gente

Com rasgos de ternura
adormeço-me nos braços da vida

E o tempo morre nas minhas mãos entrelaçadas

terça-feira, 15 de março de 2011

Dispo o fogo escondido















Nas pálpebras dos teus olhos
dispo o fogo escondido
nas vestes
do meu trémulo sorriso
e alumio o teu olhar... pavio
com as fagulhas rubras
do meu corpo ébrio

em combustões lentas
incendeio-me nos teus braços
esquecida de mim

sábado, 12 de março de 2011

Desejo

Neste rio ameno em que me desvio
na cascata rubra em que mergulho
sinto as algas, tuas mãos
roçando….

perde-se o meu corpo em desvario,
na profunda louquice de ser
….. desejo

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Assim...pessoa




















Sou nada no vazio que me consome
nesta inquietação letal,
laje que agasalha o ardor do meu sangue,
já não canto a primavera
nem danço nas falésias do teu corpo

Sou musgo amarelecido,
palanque de fogachos demoníacos
afogueando os contornos do teu rosto,
íris cega da própria cegueira,
carvão desactivado nas brumas do olhar,
vida que se esvai, no longínquo de mim…
um tudo e um nada nesse mar enchente

Sou… o que sou, modelação viva de ti
na impecabilidade do teu próprio existir

Sou eu e tu irrompendo em mim
assim… pessoa

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Solto a alma
















Solto a alma nas folhas tingidas
de aromas rubros do pretérito
e nas margens desmerecidas,
prensados fragmentos de mim

São colagens de ternuras
que me sussurram de ti,
são arremessos de palavras
que o silêncio caligrafou
e outros artefactos
que a aragem bravia
me trouxe e me doou

São imagens furtadas
ao livro que me escreveu,
rascunhos impúdicos, lapidados
pela tinta de Morfeu
são testemunhos docemente cativos
nas paginas que não se perdeu

Sou eu, és tu, é…
a vida que nunca se esqueceu
dos rascunhos que o tempo estagnou.


(Solto a alma nas folhas tingidas do pretérito)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A vida torna-se grito

Da roseira brava sem rosas
d`um jardim sepulcral
espreita os espinhos com dor
e nos caules amarelecidos
perde-se a clorofila sem cor

Cantam os pássaros sem asas
nas arvores desnudas de flor
uiva o vento em temporal
e as chuvas gotejam,
entristecidas
a fugidia luz color

No dia perfaz-se a noite
e a noite sepulcro d´ amor
na sombra escura do penhasco
o bramido mudo do Adamastor

E eis que….

Nas folhas desenha-se a gota
do espesso orvalho matinal
e na terra por arar, brota
a semente de todo esse areal

Das rosas vivas flúi o pólen
deste jardim intemporal
e na doce brisa outonal
sopra o aroma dourado
do vasto milheiral

E a vida torna-se grito
no silencio por falar

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Esboço
















São as telas desmerecidas
que amparam o meu cansaço
é o prelúdio entardecido
de mais um…
pequeníssimo traço

São as glândulas degustadas
que saboreio
entre os dissabores dúbios
pincelados
nas cores com que te pinto

São as gotículas molhadas
de uns lábios feridos
numas mãos que esculpem
o invisível sentido
e os pés que deslizam
no soalho contorcido

È o olhar que cega
à luz do próprio dia
é o pincel repousando
nos braços das madrugadas

Sou eu... esborratada
pelo quadro que não pinto
e nos traços escuros da noite
traço-me de insana mudez
no algor do que sinto

domingo, 19 de dezembro de 2010

Na geometria da vida

Na baia do teu peito
há um refúgio
uma vaga que embala
as insónias cativas de ti,
uma luz que cinzela
o fulgor do teu olhar,
um ponto que me atrai
uma recta que acelera
o fim do meu cansar

Na geometria da vida
uma esfera perdida
num eixo desviado
d`uma terra carecida
um sepulto florido
d`um jardim escondido
num tempo invertido
um quadrado alongado
d`uma estrada pedregosa
em bermas amortalhadas

E uma meta desconhecida
sinuosa… sob o brilho constelar